quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Cinema comercial e dominação abstrata


A dominação abstrata segundo a crítica do valor

A crítica do valor retoma e desenvolve uma ideia poderosa de Marx: a alienação. A dominação fundamental no capitalismo não é pessoal, não é a da classe burguesa sobre o operariado, onde aquela personifica o capital e este o trabalho. Nesta perspectiva, que é a do marxismo tradicional, a revolução seria feita pela classe trabalhadora, que assume o papel de sujeito revolucionário.

Para a crítica do valor, a dominação no capitalismo é impessoal e abstrata, exercida pela forma social valor. Em termos grosseiros, a dominação é exercida pelo dinheiro, que é um meio que se tornou um fim em si mesmo. O capital é cego e seu único objetivo é se multiplicar. Para isto ele consome a natureza e o tempo de trabalho das pessoas.

Os homens criaram a forma social valor (o dinheiro, o capital), mas esta forma social não está mais sob o controle dos homens e é ela que os controla e os submete para sua finalidade de multiplicar o valor. O valor se torna uma segunda natureza à qual as pessoas tem que submeter para sobreviver. Como a natureza, suas leis são cegas, implacáveis e gerais. E as pessoas não têm consciência desta dominação abstrata, considerando-a natural: daí a forma social valor se caracterizar como uma segunda natureza.

Guerra nas Estrelas e Matrix

Mas com a crise generalizada do capitalismo atual, a dominação abstrata do capitalismo está perigosamente próxima à consciência das pessoas. Isto é possível notar na ficção científica. Este gênero cinematográfico se confunde com a história do cinema e representa, sob vários aspectos, a narrativa mítica da sociedade moderna: a ficção científica é uma projeção dos desejos e medos da "alma" do povo, expressão da psique coletiva da modernidade.

Até as décadas de 70 e 80 o enredo da ficção científica comercial foi geralmente maniqueísta, como os romances de folhetim que narram a luta entre mocinhos e bandidos. O representante máximo desta corrente é, sem dúvida, a trilogia "Guerra nas Estrelas" e suas intermináveis disputas entre os jedi (um misto de heróis gregos, monges, cavaleiros medievais, samurais e super-heróis de quadrinhos) seguidores do lado luminoso da Força, e os Sith, cavaleiros do mal, cultuadores do lado negro da Força. Uma típica luta entre o bem e o mal. Como na narrativa mítica, o sucesso popular é fundamental e significa que a história conseguiu exprimir a visão de mundo, medos e anseios do povo.

Mas se "guerra nas estrelas" foi o auge da ficção científica maniqueísta, também foi o começo do fim. Na passagem para o século XXI é lançado Matrix, com seus revolucionários efeitos especiais, mas também com um enredo surpreendente, que subverte o paradigma maniqueísta. A ideia é que os humanos, após perderem uma guerra apocalíptica contra máquinas inteligentes, são utilizados como fonte de energia elétrica para as máquinas. Para mantê-los vivos em seus campos de cultivo, as máquinas precisam que seus cérebros acreditem que vivem uma vida real. Para isto criaram a Matrix, uma programa de computador que simula o real, mantendo os humanos vivos e sob controle.

Matrix não elimina totalmente o maniqueísmo, pois as máquinas representam, em certo sentido, o mal, enquanto os humanos que se libertaram da Matrix (há esta possibilidade no filme) seriam o bem. Mas é interessante notar como o controle não é percebido pela imensa maioria das pessoas, que consideram a Matrix real e suas leis naturais. Se a Matrix e as máquinas são o mal (e na sequência do primeiro filme, veremos que esta ideia é relativizada), ele não é percebido como tal pelas pessoas, ao contrário do Império em Guerra nas Estrelas, que era visto e se assumia como o mal, pura e simplesmente.

Esta ideia  e um controle impessoal, de uma coerção objetiva que a Matrix exerce sobre as pessoas, como se fosse uma segunda natureza, sem que elas tenham consciência deste controle, é muito parecida com a ideia de dominação abstrata exercida pelo capital, desenvolvida pelo marxismo da crítica do valor.

O fato de um filme de ficção científica de enorme repercussão popular, basear sua narrativa (mítica) em ideias semelhantes à de dominação abstrata do marxismo indica que tal conceito se avizinha da consciência das massas.
É claro que, no filme, a dominação sofre um duplo deslocamento: temporal e espacial. Ela ocorre no futuro e o agente que exerce a dominação são as máquinas. Para o marxismo, a dominação ocorre no presente e o agente da dominação é o capital. Há também uma diferença qualitativa: para o marxismo, o capital é inconsciente e sua dominação é cega e sem objetivos que não sejam sua expansão quantitativa, enquanto no filme as máquinas têm consciência e o claro objetivo de dominar os humanos para viver às custas de sua energia.

Estes deslocamentos que o filme promove (do presente para o futuro, do capital para as máquinas) que tornam sua ideia de dominação abstrata apenas semelhantes à do marxismo, sem apreender o conceito na sua totalidade, significam que a dominação abstrata, embora não esteja mais no inconsciente (encoberta, esquecida) da psique popular, também não aflorou à consciência. Ela se encontra, então, no nível pré-consciente da psicologia das massas.

A pré-consciência de um conteúdo significa uma crise da psique. O que está inconsciente é o recalcado, que foi reprimido e impedido de vir à tona, geralmente por meio violentos. Tal conteúdo assume feições monstruosas e demoníacas. Nos momentos de crise, o reprimido encontra brechas para aflorar e exerce imensas pressões para romper as barreira de recalques. Como a consciência (o ego) se recusa a ver este conteúdo que insiste em aflorar, ela costuma deslocá-lo, através de fantasias e projeções. Assim, o capital é deslocado para as máquinas e sua dominação abstrata presente é projetada num futuro distante.

A sensação que a ficção científica provoca é de alívio para a psique, pois proporciona a vazão de conteúdos reprimidos que exercem pressões enormes para aflorar, sem que seja preciso ter plena consciência destes conteúdos. Trata-se de manter do status quo da psique coletiva, que mantém, assim, seu equilíbrio, preservando, em consequência, o status quo social. Assim a dominação abstrata que o capitalismo exerce sobre as pessoas, que lhe causa tanto mal estar, é deslocada para a fantasia de um mundo onde as máquinas dominam os homens sem que estes saibam.

Borgs

A série televisiva Star Trek tem início na década de 60 e deu início a uma longa sequência de outras séries de TVs e vários filmes. São uma fusão de narrativas de viagem de aventura com a ficção científica. Se Guerra nas Estrelas se concentra nas batalhas, como se fosse uma Ilíada futurística, Star Trek destaca a vigem exploratória ao desconhecido, se aproximando da Odisséia de Ulisses.

Nestas viagens exploratórias surgem eventualmente civilizações inimigas,  normalmente regimes despóticos ou imperiais e que desempenham o papel de vilões, antagonistas sem os quais estas narrativas de viagem superficiais se tornariam insuportáveis as seu público infantilizado, predominantemente formado por aficionados e nerds. O papel que os hhumanos se atribuem, ao se encontrarem com estes estas sociedades extraterrestres "bárbaras", é o de civilizadores, educando-as para a liberdade, a democracia e o bom uso do conhecimento em favor desses valores. Trata-se de uma projeção futurística, nada sutil, do etnocentrismo Ocidental.

Os borgs são uma destas civilizações extra-terrestres inimigas, introduzidas no episódio "Q Who" em 1989.  Mas os borgs não são um vilão comum, pois não se encaixam nem na categoria das pessoas más, como os Siths de Guerra nas Estrelas, nem na categoria de povo bárbaro a ser civilizado. Não representam, portanto, nem a maldade absoluta, assumida e consciente de sua condição, nem a maldade selvagem, causada pela ignorância e a barbárie.

Que tipo de inimigo são os borgs, então? Na Wikipédia há uma definição:
Os Borg se manifestam como zangões humanóides ciberneticamente melhorados vindos de múltiplas espécies, organizados como uma coletividade interconectada; as decisões são tomadas por uma mente coletiva, ligada por frequências de rádio subsespaciais. 
Mistos de seres biológicos e máquinas, os borgs são caracterizados como zangões desprovidos de individualidade. Eles representam perigo para os humanos, não porque querem seus territórios ou suas riquezas, nem mesmo porque querem dominá-los:

Os Borg habitam uma vasta região do Quadrante Delta da galáxia, possuindo milhões de naves e tendo conquistado milhares de sistemas. Eles operam unicamente para cumprir um único propósito: o de "adicionar as especificidades biológicas e tecnológicas [de outras espécies] a nossa" na procura de sua visão de perfeição. O conceito de perfeição é a ideia unificadora central no núcleo dos Borg. A procura da perfeição é a única motivação dos Borg, uma perfeição mecânica e sem emoção. Isso é alcançado através da assimilação forçada, um processo que transforma indivíduos e tecnologia em Borg, os melhorando — simultaneamente controlando — por meio de implantes sintéticos.
Seu objetivo é assimilar as espécies à coletividade,, melhorando-a tecnicamente. Os borgs são expansionistas e sua dominação não é pessoal (de um grupo social sobre outro) e nem mesmo política: ela é abstrata e técnica, instrumental. Os humanos, ao serem absorvidos, perderiam sua individualidade, seu sentimentos e sua liberdade, passando a ser controlados pela coletividade, uma totalidade onisciente formada pela união de todas as mentes (biocibernéticas) borgs. O objetivo de tal assimilação é simplesmente o aperfeiçoamento da "pseudoespécie", ou seja, o borg é, ao mesmo tempo um meio e um fim em si mesmo e sue único objetivo é seu crescimento em número e em eficiência técnica. É a totalidade que se realiza aperfeiçoando a si-mesma.

Esta noção de totalidade como meio que é ao mesmo tempo um fim em si é muito próxima à ideia de Ser hegueliana que, por sua vez, como observa Moishe Postone, recobre a ideia de Capital. A diferença é que Heguel concebe o Ser como consciente, trans-histórico e vê sua realização como positiva. Marx, por sua vez concebe o Capital como cego, histórico (na verdade a modernidade é a única civilização regida por uma lógica da totalidade) e vê sua realização como catastrófica para a humanidade.

A coletividade borg é uma totalidade cujas caracteríticas são um misto do Ser hegueliano e do Capital: é consciente como o ser; e certamente é histórica (pois surgiram em algum momento) e sua realização seria catastrófica para os humanos, pois implicaria no fim da espécie.

(Apenas para traçarmos um paralelo, a Matrix, como realidade neurointerativa/simulada, também constitui uma totalidade semelhante à dos borgs: consciente, histórica e cuja realização foi catastrófica para os humanos. Na verdade a Matrix é quase idêntica à coletividade borg. Uma diferença é que na Matrix, as máquinas proporcionam aos humanos uma ilusão da individualidade e controle sobre suas vidas, enquanto no universo borg a absorção pela totalidade é direta. Neste aspecto a ilusão da Matrix é mais próxima da realidade ideológica do capitalismo, fundada na fé iluminista na razão, na consciência de si e no livre arbítrio.)

A febre zumbi

O zumbi remonta às religiões africanas e foi introduzido na cultura ocidental pelos escravos africanos. Mas sua presença no imaginário contemporâneo, certamente se deve ao vodu haitiano. Na religião vodu, o zumbi é uma pessoa morta que foi revivida por um feiticeiro que tem controle total sobre o morto-vivo.

O primeiro filme sobre zumbis é o clássico trash A noite dos mortos-vivos de 1968. No filme, um grupo de pessoas se refugia numa fazenda para se defender dos mortos, que levantam da tumba para se alimentar dos vivos, mas também para contagiá-los com a praga zumbi. 

Como no vodu, os zumbis não têm vontade própria, mas as semelhanças param por aí. Ao contrário da religião haitiana, não há um feiticeiro no controle dos zumbis. O que os controla é uma fome insaciável de carne humana. e, assim, como os borgs, os zumbis expandem sua população através do contágio - que neste e em quase todos os filmes sobre zumbis acontece através de mordidas.

O sucesso da ideia foi tamanho que, a partir os anos 70, foram produzidos incontáveis filmes, séries, games, quadrinhos e até romances com a temática zumbi. A esmagadora maioria destas obras retratam o zumbi de forma semelhante à do primeiro filme: alimentam-se de pessoas vivas e as contagiam; passam a ser controladas por esta fome insaciável de carne humana; não têm consciência de si nem do mundo (são seres irracionais, involuídos ao estágio réptil); não sentem dor física ou psíquica; têm a aparência repugnante de mortos putrefatos; e seus movimentos são enrijecidos e limitados. 

A temática zumbi das narrativas pop aborda o problema do controle. As pessoas perdem o controle sobre si-mesmas ao se tornarem mortas-vivas. Como em Matrix e nos episódios sobre os borgs de Star Trek, na temática zumbi, quem controla as pessoas não é um rival humano (um déspota, uma empresa, um governo) nem mesmo um inimigo demoníaco, que representaria o mal. 

A Coletividade Borg, a Matrix e a praga zumbi são totalidades abstratas que exercem um domínio impessoal sobre os indivíduos que as compõe, sem que estes tenham consciência deste domínio. Mas enquanto as duas primeiras totalidades são dotadas de alguma consciência, mesmo que técnica/instrumental, a praga zumbi é uma totalidade cega, irracional e desprovida de qualquer objetivo que não seja se expandir. As pessoas, uma vez tornadas zumbis, existem unicamente como meio para a expansão desta totalidade, literalmente às custas de suas vidas.

A praga zumbi, como totalidade cega e expansiva, é a que mais se aproxima da totalidade do capital e sua dominação abstrata, tal como a concebe a crítica do valor. É claro que, como em Matrix e nas fábulas borgs de Star Trek, a totalidade zumbi não é identificada com o capital (o sujeito abstrato que controla o homem moderno, segundo Marx), e sim projetada num outro: a praga zumbi, que normalmente é um vírus.

Totalidade abstrata e sujeito automático

A crítica do valor concebe o capital como uma forma social que perfaz uma totalidade abstrata (porém real) que exerce uma dominação impessoal sobre os indivíduos através do trabalho. A Matrix, a coletividade Borg e a praga zumbi também perfazem uma totalidade abstrata cuja dominação é impessoal, ou seja, não é exercida nem por uma pessoa (um déspota), nem por um grupo social específico (uma oligarquia). 

Assim como o capital, a Matrix, a coletividade Borg e a praga zumbi são totalidades que dominam tanto o íntimo dos indivíduos, que se tornam autodisciplinados, quanto sua organização social. A dominação não é percebida pelos indivíduos, que a veem (no caso do zumbi, sua irracionalidade não permite perceber nada) como coações naturais que, como a leis da gravidade e a necessidade de se alimentar, não poderiam ser de outra forma. A totalidade e suas normas constituem, portanto, uma base (ou solo) a partir da qual os indivíduos agem e pensam. Mesmo quando há individualidade (como na Matrix e no capitalismo), esta é ilusória e suas características são determinadas anteriormente pela totalidade, sem que o indivíduo tenha consciência desta determinação a priori.

Por isto, o único sujeito de fato que existe em tal situação é a totalidade, a qual constitui um sujeito automático, agindo pelas costas dos indivíduos, tal como num circo de marionetes. a expressão “sujeito automático” foi cunhada por Marx para caracterizar o capital como verdadeiro sujeito por trás das ações e visões de mundo dos indivíduos na sociedade capitalista. Contestando a ideia iluminista de que o homem moderno é (ou pode se tornar) um sujeito racional, dotado de vontade própria e liberto da coações irracionais das sociedades fundadas na religião, Marx afirma que as pessoas, na modernidade, são dominadas pela totalidade abstrata do capital. Uma dominação, ao mesmo tempo, íntima e social, e que permanece inconsciente para os indivíduos, que percebe as normas do capitalismo quase como leis naturais - uma segunda natureza.

Esta totalidade que domina os indivíduos de forma impessoal e se constitui como sujeito automático, aparece nos filmes e séries sobre a Matrix, os borgs e os zumbis. E tal como em Marx, o sucesso destas totalidades em realizar-se como tal é catastrófico para os todos os seres humanos.

Diferente da ficção científica do passado e dos filmes comerciais em geral, os antagonistas destas narrativas não são pessoas ou grupos sociais que encarnam o mal, em busca de poder ou riquezas. O mal (as narrativas ainda são maniqueístas) se constitui, agora, como totalidade abstrata e sua dominação impessoal se dá pelo controle direto dos corpos e mentes, desde o íntimo dos indivíduos. O mal está, ao mesmo tempo, dentro do corpo e no exterior social, de forma onisciente e onipotente, que tudo vê e tudo pode. A totalidade (seja ela a Matrix, a coletividade borg ou a praga zumbi) é constituída pelos indivíduos, mas também os constitui e, na verdade, os controla. Exatamente como Marx concebe a dominação abstrata do capital. Tanto no capitalismo quanto nas fábulas da ficção científica, os indivíduos são destituídos de sua humanidade se tornam apenas meios para a totalidade abstrata se reproduzir e se realizar: trabalhadores no capitalismo, fonte de energia na Matriz, corpo hospedeiro para a praga zumbi, zangão da coletividade Borg.


- filmes funcionam como metáforas: um sentido remete a outro (com distorções e imprecisões)
- projeção do conteudo (dominação abstrata do capital) reprimido na sociedade
- Projeção num outro (máquinas, ETs, vírus)
- antes: nivel incosnciente; agora: nivel pre-consciente
- pre-consciencia -> conteúdo faz pressão para emergir: se aproxima da consciencia
- repressão pode se tornar mais violenta diante da iminência da emergência dos conteúdos reprimidos (neofacismo, fundamentalismo, reacionarismo)


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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Com a bênção de Deus

O porrete baixa nas costas das bichas e macumbeiros
Os vermelhos e os pretos apodrecem com os bandidos na prisão-vingança
As bocas evangélicas vomitam fascismo como se cantassem o amor
As cantilenas (neo)liberais enrabam o povo como se o ninassem
As cobras, águias e urubus se apoderam dos quatro poderes
As chupetas eletrônicas adoçam a alma enquanto levam tudo
Os condomínios e apartamentos se apartam do mundo
As pessoas se apartam do mundo, umas das outras, de si mesmas
O ódio floresce nos jardins de asfalto

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Crítica do valor: crítica do trabalho

A crítica do valor, ao contrário do marxismo tradicional, é uma crítica do trabalho. Este é visto como a substância do valor, ou seja, o trabalho no capitalismo existe para se converter em valor e mais valor (capital).

O marxismo tradicional é uma crítica do capitalismo a partir do trabalho. Por isso, a classe trabalhadora é vista como o sujeito coletivo revolucionário que irá superar o capitalismo, rumo ao socialismo.

A crítica do valor não nega a luta de classes, que é o conflito do trabalho com o capital. Mas, para eles, esta é uma luta dentro dos limites do capitalismo e não tem a capacidade de levar à superação deste, pois o trabalho é uma categoria básica do capital.

O comunismo (superação do socialismo) não viria com a tomada do poder pela classe trabalhadora, que se tornaria proprietária dos meios de produção, como pensa o marxismo tradicional. Para a crítica do valor, o comunismo só será possível com a abolição da classe trabalhadora. A superação do capitalismo não seria a realização do trabalho (e do trabalhador), mas sua extinção.

Por que se trabalha na capitalismo? Muitos dirão que é para satisfazer as necessidades humanas, físicas e simbólicas: alimentação, moradia, transporte, vestuário, diversão etc. Para os críticos do valor esta dimensão concreta do trabalho, de satisfação das necessidades, existe, mas fica em segundo plano. O motivo principal de trabalharmos no capitalismo é para gerar valor e mais valor.

Em termos grosseiros, trabalhamos para o dinheiro se multiplicar. Vivemos, literalmente, para o dinheiro, como se fôssemos pilhas de energia para alimentar o capital. No capitalismo, a economia não existe para satisfazer as necessidades das pessoas, como pensam os economistas liberais ou progressistas. São as pessoas que existem para satisfazer as necessidades da economia: e a sua principal necessidade é a reprodução do capital.

O poeta Paulo Leminski em seu livro Metaformose escreve que "os homens são os órgãos sexuais das fábulas". Com esta bela metáfora ele queria dizer que há um mundo das fábulas para além do controles dos homens que as contam.  Ao contrário do senso comum, que diz que os homens utilizam as fábulas para exprimir sua cultura, Leminski inverteu os termos: são as fábulas que se utilizam dos homens para se reproduzir. Como se o mundo das fábulas fosse independente da vontade dos homens e estivesse, na verdade, no controle da relação homem-fábula.

Esta metáfora de Leminski é análoga à visão da critica do valor. Pensamos que o dinheiro e a economia servem às nossas necessidades, mas na realidade nós é que servimos à economia. Parafraseando Leminski, "os homens são os órgãos sexuais do capital". O verdadeiro sujeito (automático, como dizia Marx) que tem o controle da relação homem-economia é o capital.

Para a crítica do valor, as pessoas são pilhas que alimentam a maquinaria abstrata do capital. E é através do trabalho que a economia suga a energia das pessoas e o capital se reproduz.



sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Marx antropólogo

Dependendo da perspectiva, Marx pode ser considerado economista, sociólogo ou filósofo.

Recentemente, a crítica do valor, cujos principais teóricos são Moishe Postone e Robert Kurtz, redescobriram um outro Marx e, consequentemente, um outro marxismo, próximos da antropologia.

Um conceito chave da antropologia é o de cultura, que se refere, entre outras coisas, à identidade de um povo e, consequentemente, à diferença entre ele e os outros povos.

O reconhecimento da diferença irredutível entre os povos é um mérito da antropologia. Esta irredutibilidade implica na impossibilidade de se medir um povo pela régua cultural de outro povo. Quando uma cultura tenta entender a outra, a partir de suas ideias, crenças e valores, inevitavelmente haverá uma distorção que resulta, quase sempre, na visão do outro como indesejável ou inferior.

É o que aconteceu com o Ocidente no séc. XIX, quando os primeiros antropólogos modernos, ao tentar interpretar as culturas dos povos não ocidentais, taxou-os de primitivos. Povos tribais de vários continentes e até povos imperiais, como Indianos, Japoneses e Chineses, seriam inferiores aos povos ocidentais, numa suposta escala evolutiva cultural. É o que conhecemos hoje como etnocentrismo ocidental.

O que Marx e seus escritos tem a ver com tudo isto?

A leitura que a crítica do valor  faz de Marx, ao contrário do marxismo tradicional, não considera que a lógica dialética (ou qualquer outra) seja aplicável a toda história humana. Apenas o capitalismo se desenvolve dialeticamente. Aliás, apenas o capitalismo tem uma lógica totalizante de evolução histórica, o que o caracteriza como uma cultura previsível em seu desenvolvimento histórico. A sociedade capitalista (a modernidade) é dirigida ferreamente pelas leis do capital, que são dialéticas, progressivas e totalizantes, além de inconscientes, pois não dependem das vontades de grupos e indivíduos, atuando "por trás" de suas vontades.

As outras culturas e suas histórias, embora marcadas também por simbolismos inconscientes, não são guiadas por uma férrea "lei social" como a do capital. Por isto, a sua história é muito menos previsível e progressiva que a modernidade.

Para Moishe Postone e Robert Kurtz a insistência em aplicar conceitos como trabalho, mercado, economia e comércio em outras culturas, não passam de projeções de nossas categorias a povos que nada tem a ver com elas. Da mesma forma, quando se tenta encontrar regras totalizantes que determinam a evolução de uma dada cultura ou mesmo de toda a humanidade, o que se faz é  projetar as "leis" de desenvolvimento da sociedade capitalista (progressiva e totalizante) a povos cuja história se desenrola sem as coerções da "lei social" do capital.

Outro ponto que distancia o marxismo tradicional dos teóricos da crítica do valor é que estes consideram as categorias básicas que Marx utiliza para definir o capitalismo (trabalho, valor, mercadoria e capital) como formas sociais fundantes. Para os críticos do valor, estas formas sociais são, ao mesmo tempo, constituídas por e constituintes das relações sociais no capitalismo.

É a partir das formas sociais que a lógica dialética do capital irá se desenvolver e moldar todo o sistema, desde sua economia, passando por suas instituições políticas, até a subjetividade dos indivíduos. O materialismo marxista, tão prezado pelo marxismo tradicional, é substituído pelos arranjos simbólicos das formas sociais, que se transformam no cerne cultural do "povo' capitalista, ou seja, do homem moderno. (A palavra homem cai bem aqui, pois a perspectiva capitalista do mundo é masculina, construída culturalmente como competitiva e racional, em oposição à mulher, solidária e emotiva. A concorrência impiedosa e dominação "racional" e irrefreada do mundo são as manifestações desta subjetividade masculina que, em última análise é próprio capital  (sujeito automático) agindo "por trás" das pessoas.)

Para a crítica do valor, assim como para a antropologia, não é a evolução material das técnicas e ferramentas (forças produtivas) que determinam o desenvolvimento do mundo simbólico constituído pelas formas sociais. Antes, é a maneira como as formas sociais (o simbólico) organizam o desenvolvimento das técnicas e ferramentas que determinam a identidade de um povo e, em consequência, a diferença para com os outros povos.

A especificidade do Marxismo, se o virmos como uma antropologia, é que se trata do estudo da identidade de um único povo: a sociedade moderna. Trata-se de uma antropologia, ao mesmo tempo limitada e global. Limitada por se restringir à sociedade capitalista que remonta a, no máximo, 500 anos da história humana e que, caso Marx esteja certo (e a empiria tem confirmado as suas previsões) não tem muito tempo de vida. O dia em que o capitalismo acabar o marxismo também acaba, pois sua única missão é perseguir criticamente o desenvolvimento capitalista, de seu nascimento à sua morte, como uma sombra inconveniente.

Mas o marxismo se tornou global à medida que seu objeto de estudo, o capitalismo, se expandiu por toda a Terra, eliminando as outras culturas. Hoje, praticamente todos os povos da terra foram absorvidos pelas formas sociais capitalistas, restando quase nada das abissais diferenças entre os povos pré-capitalistas, pois uma das consequências da lógica totalizante do capital é a padronização progressiva de todas as sociedades, tornando-as uma mesma cultura.

O marxismo se torna global também porque se expandiu a todas as esferas da vida, impregnando praticamente toda a atividade humana com suas leis e valores. Do mercado, passando pela política, pelos lares, até chegar ao íntimo da subjetividade e às fugas da arte, o capital impõe suas categorias, leis e perspectivas, deixando pouco espaço para o desenvolvimento de uma alteridade que o questione.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

na pátria pré-abissal

ambulantes e mendigos rondando os sinais entupidos de carros e noias rondando as ruas despencadas de lobos ferozes e ovelhas crédulas rondando o caos

ricaços de mala e cuia para Miami Portugal ou reforçando seus bunkers à prova de pretos e pobres subgente sonhando sonhos clandestinos de América e Europa

a média remediada morrendo de medo em seus bunkers precários úteros de ódio e rancor se agarrando a lentes e telas bíblias e balas futebol e churrasco

todo mundo embalado na canção de ninar do trabalho duro e do mérito pessoal entoada dia e noite nas ruas e redes para as pessoas de bem contra os vermelhos do mal

amém

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lá fora (bunkers 2)

As mãos dadas do mundo?
Desse mal-
querer não padecem.

Querem
saltar da favela
ao paraíso dos bunkers,
vida próspera e reta,
ganhar e gastar.

Querem voar
pra clausura dos muros
dos homens-casulo
em suas conchas de ouro.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Limpeza urbana

Guardas civis,
com o apoio de garis,
tomam os bagulhos do mendigo
e, de quebra,
lhe aplicam uns bons sopapos.

Bem feito!
Quem mandou
sujar a cidade com os seus trapos
e sua existência?

O episódio é desagradável
ao paladar civilizado,
porém,
necessário ao bom funcionamento
e à assepsia da cidade,
para o bem viver
das pessoas de bem.

O prefeito,
sinceramente,
lamenta o os fatos
e lava as mãos.


quinta-feira, 16 de março de 2017

bunkers

os vidros fechados dos carros
os muros altos das casas
condomínios fechados
edifícios fortificados
câmeras, sensores, alarmes
a segurança dos shoppings

lá fora o mundo
favela sem fim

o egoísmo venceu
palmas pra mim

terça-feira, 7 de março de 2017

bigmedia.com

– Você não desgruda desses sites
e canais de notícias!

– Ah, eu gosto muito de ficção!

sexta-feira, 3 de março de 2017

Bestagem

Bom dia Maria, boa tarde João,
boa noite professor. Como vai?
Tudo bem?

Qual a substância humana oculta
atrás da máscara-máquina de trabalhar
de todo mundo, todo dia?

Deixa disso meu filho, que perguntação
mais besta, de gente besta, da besta!
Vai que não tem nada...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A natureza da poesia

A poesia sempre foi uma coisa suja, das que se misturam com o pior que há. A poesia de hoje não está nos livros, purificada por rigores estéticos, regrada pela erudição e chancelada pela autoridade dos intelectuais e da academia.

A poesia de hoje é a música pop, a canção, samba, blues, rock, sertanejo, funk. Os poetas e sua poesia se sujam de massa e mercado. Sua poesia é feita de música e letra rudimentares, movida à fama e dinheiro.

É neste pântano da poesia que surge, de vez em quando, a luz de uma canção selvagem, um poeta sombrio que nos ilumina.



domingo, 1 de janeiro de 2017

Nosotros

Multidões,
vagam sós pelas redes, ruas,
mercados, shoppings, rodovias...
Carregam o desejo infinito de mais, sempre mais.
A vida se esvai

e a multidão, que não sabe de si,
se entrega ao trabalho incessante
de seus corpos contagiados pela devoção
da devoração do mundo
e de si mesmos.

Os zumbis perdem partes de si
perdem os seus, a alma e o mundo
e não sentem dor.
Perdem a beleza, derretem, despencam de si
e não se sentem feios
nem belos.
Perdem o prumo, o sentido, a lembrança
e não sentem o nada
imenso que os habita.

Autômatos perfeitos,
os zumbis não sentem o mal
nem o bem,
nem a solidão que se expande na noite
sem lua e estrelas de seu espírito ausente.

Não sentem nada
a não ser o desejo infinito de devorar(-se),
de gastar(-se) mais
e mais

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

domingo, 18 de dezembro de 2016

o reino de mammon

cada palmo de terra
tem cerca e senhor
sertão não tem não

um maquinal compasso
de prazos e horários
adestra a duração

balcões e vitrines
encerram o desejo
em jaulas de ouro

nem as almas tão leves
escapam ao peso
das réguas do preço

o corpo e a mente
dia a dia se negam
se entregando ao trabalho

no coração dos súditos
a aridez das horas
a solidão dos muros



sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

no dentro do momento

é preciso estar dentro do tempo
soçobrar e delirar ao mesmo tempo
e no mesmo universo dos astros
que povoam nosso céu pop
& cosmológico de estrelas
sem fim     estar agora
saber que agora
todos os agoras
são atravessados de precário
pelos séculos dos séculos
antes e depois deste momento
não há nada que não seja
movimento     nada permanece
em si     tudo está
fora de si    não há
nada mais fora da hora
que pensar em versos
sobre a antietern
idade
do universo
este poema
se des
faz
em mi
l
ped
aços
arbitrá
rios
ao capricho de um cand
ido epígono (po
p)d i     l        u           i
dor de tu
do
se des
faz em
l e t r a s
balbu
cio de am
or ou brincade
ira de cria
nça     pueril
po
e
ira
em
forma
de
po
esia
á r i a  á r i d a
espaços vazios de
uma galáxia
um des
erto ou á
tomo ou alma de um roma
ntico senti
mental
em certos assuntos
(em est
éticas & práticas po
éticas)
pertencer à primeira metade do século XX
é estar mais próximo do século XIX ou XV
ou de dante & ovídio & homero
do que deste momento pop pós-meta
físico
em que nada res
ta resta
nos então la
mentar di
ante da per
versidade da vora
cidade  da eletri
cidade que nos
cerca nos suf
oca no ag
ora
mas por que lamentar querendo ex
tar estrela eterna num pass
ado que não vou
ta
mais
?
que tal
vez nunc
a h
ouve
na face da t
erra
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é preciso estar errar so
rrir chorar esc
rever vi
ver
mer
gul
ha
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no
d
e
n
t
r
o
m
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s
d
e
n
t
r
o
d
o
m
o
m
e
n
t
o
nas margens do dentro


Escrito em 2008

sábado, 26 de novembro de 2016

à velocidade da luz

o caos avança nas ruas      o caos avança nas casas      zumbis vagam o deserto
de asfalto ferro e cimento      ávidos por um trabalho      ávidos por um salário  
anseiam uma chuva de crédito      para a colheita nos shoppings      e um farto supermercado
se as bocas repetem que sim      à espera de dias melhores      os olhos se afundam no chão
por dentro uma chuva de lágrimas      inunda o deserto das almas     de frio ferrugem e pó
os zumbis e seus corpos lentos      lentos seus pensamentos      se perdem apodrecendo
no inferno de ferro e cimento      o caos avança nos corpos      o caos avança nas mentes
à velocidade da luz

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Animal Poetry



Há quem pense que o poeta pensa.
Ele não pensa, costuma ser um desastre intelectual.

Há quem pense que o poeta é um erudito refinado...
Outros, este não, este é só
um vagabundo da cultura. Ardiloso,
se passa por douto.

Há quem pense que o poeta tem o poder
de sondar os abismos da palavra,
da alma e da cidade dos homens,
quando apenas vaga perdido na superfície dos mares
como um pirata vil e violento, sedento
por roubar o tesouro dos homens
e torrá-lo em orgias nababescas.

Há quem pense que o poeta é sensível…
Isto ele é, mas sem sutileza.
Sim, o poeta é sensível,
de uma sensibilidade brutal.

Poema do livro Última Dobra.