quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Nine

O réu é de origem pobre e oriundo da região Nordeste
Criado e crescido na metrópole de São Paulo
Foi treinado e exerceu trabalhos braçais
E fala mal a língua pátria
O que torna, de saída, todos os seus atos suspeitos

Não é negro de pele mas exames acurados de sua psique
Evidenciam uma alma enegrecida, certamente por conviver,
Desde tenra idade, muito misturado à gente de cor e paupérrima
O que eleva consideravelmente a suspeição de seus atos

Como atenuante, o réu ascendeu na vida, ocupou cargos importantes
Usou terno e gravata exigidos pelo exercício do cargo
E tem, atualmente, um padrão de vida relativamente elevado

Porém, o atenuante é completamente anulado
Pois o réu, embora livre da praga da pobreza
Insiste em trazer dentro de si a alma negra
E pobre e nordestina e de trabalhos braçais
E barba muito suspeita e recusa em elevar seu português operário
À língua culta dos doutos que somos nós

Declaramos, então, o réu indigno dos cargos que ocupou
E o proibimos de ocupar este ou qualquer outro cargo
Exclusivo da gente clara e esclarecida, como nós
Declaramos também o réu indigno de nosso convívio
Pois fala mal, não se barbeia e certamente cheira mal
Como costuma acontecer a todas as almas ou corpos empestiados
De pobreza, negritude, Nordeste ou trabalhos braçais

Em conclusão, o réu é culpado
Não por ser nordestino, de alma negra e pobre e braçal
Pois somos capazes de reconhecer a utilidade
E até mesmo de amar tais tipos, desde que se resignem
À sua condição inferior e nos sirvam com amor
Pois precisamos de domésticas, babás, motoristas,
Garçons, pedreiros, garis e jagunços
Para o bom funcionamento de nossas casas e cidades

O réu é culpado pelo crime hediondo
De querer viver conosco em nossa casa grande
Sem perder a alma negra e pobre e nordestina e braçal
E mais culpado ainda por fazer crer à ralé que nos serve
Que nossa bela e exclusiva casa grande é dela também,
Que a casa é de todos: pretos, pobres, nordestinos, braçais...
Quanta heresia! É culpado, mil vezes culpado
De querer nos fazer conviver como iguais (oh! horror)
Oh! horror) com a gente serviçal, tosca e fétida!

Prendam o réu!
Em nome de Deus e da família!
Torturem a ele e a seus companheiros!
Ponham-no no tronco e lhe apliquem mil chibatadas!
De pau de arara veio, ao pau de ara retornará!
Cortem-lhe a cabeça! Mas não rapidamente, que o réu sofra antes,
Que perca a mulher, que seus filhos e netos paguem por seu atrevimento
Que seus companheiros sejam perseguidos! Que o seu sonho
De promover a ralé malcheirosa à dignidade de nós doutos
Desmorone diante de seu olhar triste e impotente!
Que ele perca todas as batalhas! E que gozemos,
Que gozemos no ódio que nos move a sua dor mais funda!
Gozemos a tristeza sem esperança da ralé que o tem como ídolo!
E que nossa Pátria amada verde amarela seja desinfetada,
Para todo o sempre, de seu corpo e de sua alma
Negra, vermelha e criminosa!

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Paisagem muda

O lote limpo dos detritos,
retângulo de concreto
entre três muros
e a calçada.

Quem quer se lembrar
da dor que irradia
da cápsula ao corpo,
do corpo à alma?

Do muro dos fundos
um grafite grita
a dor soterrada
no concreto do lote.

Um grafite grafa
as letras de Leide
que não vai mais andar
em nossa cidade.

Só um grafite
(arte de negros)
corta o silêncio
de concreto do lote

e desenterra a dor
(grito invisível)
dos que não têm voz.




terça-feira, 21 de novembro de 2017

parada

ele ta parado
rios
d pessoas dinheiro bytes likes circulam ao redor
ele ta parado na esquina da city
os cabos emaranhados nos postes
nos chips nos neuronios nos mercados
parado na esquina
uma esquina caipira meninas de minissaia tatuagens mendigo cachorro carros
um cheiro d mijo
parado no centro da cidade do mundo num canto do manto inconsútil de asfalto
que a cobre 
onibus correm vagam pobres motoboys trabalham
ele parado alheio 
ao zumbido infernal da urbe pronta pro abismo depressivo
desemprego desespero rondando familias famiglias rondando a carniça
guangues d terno e gravata 
corporations 
banks cassinos roleta russa d logaritmos
os cerebros bem pagos
a ultima tecnologia se transmuta 
armas armazens gens
mercado das almas
mercado das carnes
sangue civil vaginas frescas misseis paus guerras mundial fudelança geral geopolítica putaria
ele na esquina qualquer parado
absorto
o mundo corre solto rios de merda debaixo dos pes
o esgoto da alma examinado meticulosamente
etiquetas medidas pesos preços categorias qualidade total estatisticas relatorios
o esgoto eletronico
lentes e telas fones microfones links e likes
parado
a vida anda sem sair do lugar pedra d sisifo progresso sem destino sem plenitude
a vidas n faz sentido
ele se move
uma moeda
pinga
na lata do mendigo

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Cinema comercial e dominação abstrata


A dominação abstrata segundo a crítica do valor

A crítica do valor retoma e desenvolve uma ideia poderosa de Marx: a alienação. A dominação fundamental no capitalismo não é pessoal, não é a da classe burguesa sobre o operariado, onde aquela personifica o capital e este o trabalho. Nesta perspectiva, que é a do marxismo tradicional, a revolução seria feita pela classe trabalhadora, que assume o papel de sujeito revolucionário.

Para a crítica do valor, a dominação fundamental no capitalismo não é a que a classe burguesa exerce sobre os trabalhadores, mas sim uma dominação impessoal e abstrata, exercida por uma forma social, o valor. Em termos grosseiros, a dominação é exercida pelo dinheiro, que é um meio que se tornou um fim em si mesmo. O capital (valor que se valoriza) é cego e seu único objetivo é se multiplicar. Para isto ele consome a natureza e o tempo de trabalho das pessoas.

Os homens criaram a forma social valor (o dinheiro, o capital), mas esta forma social não está mais sob o controle dos homens e é ela que os controla e os submete para sua finalidade de multiplicar o valor. O valor se torna uma segunda natureza à qual as pessoas tem que submeter para sobreviver. Como a natureza, suas leis são cegas, implacáveis e gerais. E as pessoas não têm consciência desta dominação abstrata, considerando-a natural: daí a forma social valor se caracterizar como uma segunda natureza.

Guerra nas Estrelas e Matrix

Mas com a crise generalizada do capitalismo atual, a dominação abstrata do capitalismo está perigosamente próxima à consciência das pessoas. Isto é possível notar na ficção científica. Este gênero cinematográfico se confunde com a história do cinema e representa, sob vários aspectos, a narrativa mítica da sociedade moderna: a ficção científica é uma projeção dos desejos e medos da "alma" do povo, expressão da psique coletiva da modernidade.

Até as décadas de 70 e 80 o enredo da ficção científica comercial foi geralmente maniqueísta, como os romances de folhetim que narram a luta entre mocinhos e bandidos. O representante máximo desta corrente é, sem dúvida, a trilogia "Guerra nas Estrelas" e suas intermináveis disputas entre os jedi (um misto de heróis gregos, monges, cavaleiros medievais, samurais e super-heróis de quadrinhos) seguidores do lado luminoso da Força, e os Sith, cavaleiros do mal, cultuadores do lado negro da Força. Uma típica luta entre o bem e o mal. Como na narrativa mítica, o sucesso popular é fundamental e significa que a história conseguiu exprimir a visão de mundo, medos e anseios do povo.

Mas se "guerra nas estrelas" foi o auge da ficção científica maniqueísta, também foi o começo do fim. Na passagem para o século XXI é lançado Matrix, com seus revolucionários efeitos especiais, mas também com um enredo surpreendente, que subverte o paradigma maniqueísta. A ideia é que os humanos, após perderem uma guerra apocalíptica contra máquinas inteligentes, são utilizados como fonte de energia elétrica para as máquinas. Para mantê-los vivos em seus campos de cultivo, as máquinas precisam que seus cérebros acreditem que vivem uma vida real. Para isto criaram a Matrix, uma programa de computador que simula o real, mantendo os humanos vivos e sob controle.

Matrix não elimina totalmente o maniqueísmo, pois as máquinas representam, em certo sentido, o mal, enquanto os humanos que se libertaram da Matrix (há esta possibilidade no filme) seriam o bem. Mas é interessante notar como o controle não é percebido pela imensa maioria das pessoas, que consideram a Matrix real e suas leis naturais. Se a Matrix e as máquinas são o mal (e na sequência do primeiro filme, veremos que esta ideia é relativizada), ele não é percebido como tal pelas pessoas, ao contrário do Império em Guerra nas Estrelas, que era visto e se assumia como o mal, pura e simplesmente.

Esta ideia  e um controle impessoal, de uma coerção objetiva que a Matrix exerce sobre as pessoas, como se fosse uma segunda natureza, sem que elas tenham consciência deste controle, é muito parecida com a ideia de dominação abstrata exercida pelo capital, desenvolvida pelo marxismo da crítica do valor.

O fato de um filme de ficção científica de enorme repercussão popular, basear sua narrativa (mítica) em ideias semelhantes à de dominação abstrata do marxismo indica que tal conceito se avizinha da consciência das massas.
É claro que, no filme, a dominação sofre um duplo deslocamento: temporal e espacial. Ela ocorre no futuro e o agente que exerce a dominação são as máquinas. Para o marxismo, a dominação ocorre no presente e o agente da dominação é o capital. Há também uma diferença qualitativa: para o marxismo, o capital é inconsciente e sua dominação é cega e sem objetivos que não sejam sua expansão quantitativa, enquanto no filme as máquinas têm consciência e o claro objetivo de dominar os humanos para viver às custas de sua energia.

Estes deslocamentos que o filme promove (do presente para o futuro, do capital para as máquinas) que tornam sua ideia de dominação abstrata apenas semelhantes à do marxismo, sem apreender o conceito na sua totalidade, significam que a dominação abstrata, embora não esteja mais no inconsciente (encoberta, esquecida) da psique popular, também não aflorou à consciência. Ela se encontra, então, no nível pré-consciente da psicologia das massas.

A pré-consciência de um conteúdo significa uma crise da psique. O que está inconsciente é o recalcado, que foi reprimido e impedido de vir à tona, geralmente por meio violentos. Tal conteúdo assume feições monstruosas e demoníacas. Nos momentos de crise, o reprimido encontra brechas para aflorar e exerce imensas pressões para romper as barreira de recalques. Como a consciência (o ego) se recusa a ver este conteúdo que insiste em aflorar, ela costuma deslocá-lo, através de fantasias e projeções. Assim, o capital é deslocado para as máquinas e sua dominação abstrata presente é projetada num futuro distante.

A sensação que a ficção científica provoca é de alívio para a psique, pois proporciona a vazão de conteúdos reprimidos que exercem pressões enormes para aflorar, sem que seja preciso ter plena consciência destes conteúdos. Trata-se de manter do status quo da psique coletiva, que mantém, assim, seu equilíbrio, preservando, em consequência, o status quo social. Assim a dominação abstrata que o capitalismo exerce sobre as pessoas, que lhe causa tanto mal estar, é deslocada para a fantasia de um mundo onde as máquinas dominam os homens sem que estes saibam.

Borgs

A série televisiva Star Trek tem início na década de 60 e deu início a uma longa sequência de outras séries de TVs e vários filmes. São uma fusão de narrativas de viagem de aventura com a ficção científica. Se Guerra nas Estrelas se concentra nas batalhas, como se fosse uma Ilíada futurística, Star Trek destaca a vigem exploratória ao desconhecido, se aproximando da Odisséia de Ulisses.

Nestas viagens exploratórias surgem eventualmente civilizações inimigas,  normalmente regimes despóticos ou imperiais e que desempenham o papel de vilões, antagonistas sem os quais estas narrativas de viagem superficiais se tornariam insuportáveis as seu público infantilizado, predominantemente formado por aficionados e nerds. O papel que os hhumanos se atribuem, ao se encontrarem com estes estas sociedades extraterrestres "bárbaras", é o de civilizadores, educando-as para a liberdade, a democracia e o bom uso do conhecimento em favor desses valores. Trata-se de uma projeção futurística, nada sutil, do etnocentrismo Ocidental.

Os borgs são uma destas civilizações extra-terrestres inimigas, introduzidas no episódio "Q Who" em 1989.  Mas os borgs não são um vilão comum, pois não se encaixam nem na categoria das pessoas más, como os Siths de Guerra nas Estrelas, nem na categoria de povo bárbaro a ser civilizado. Não representam, portanto, nem a maldade absoluta, assumida e consciente de sua condição, nem a maldade selvagem, causada pela ignorância e a barbárie.

Que tipo de inimigo são os borgs, então? Na Wikipédia há uma definição:
Os Borg se manifestam como zangões humanóides ciberneticamente melhorados vindos de múltiplas espécies, organizados como uma coletividade interconectada; as decisões são tomadas por uma mente coletiva, ligada por frequências de rádio subsespaciais. 
Mistos de seres biológicos e máquinas, os borgs são caracterizados como zangões desprovidos de individualidade. Eles representam perigo para os humanos, não porque querem seus territórios ou suas riquezas, nem mesmo porque querem dominá-los:

Os Borg habitam uma vasta região do Quadrante Delta da galáxia, possuindo milhões de naves e tendo conquistado milhares de sistemas. Eles operam unicamente para cumprir um único propósito: o de "adicionar as especificidades biológicas e tecnológicas [de outras espécies] a nossa" na procura de sua visão de perfeição. O conceito de perfeição é a ideia unificadora central no núcleo dos Borg. A procura da perfeição é a única motivação dos Borg, uma perfeição mecânica e sem emoção. Isso é alcançado através da assimilação forçada, um processo que transforma indivíduos e tecnologia em Borg, os melhorando — simultaneamente controlando — por meio de implantes sintéticos.
Seu objetivo é assimilar as espécies à coletividade,, melhorando-a tecnicamente. Os borgs são expansionistas e sua dominação não é pessoal (de um grupo social sobre outro) e nem mesmo política: ela é abstrata e técnica, instrumental. Os humanos, ao serem absorvidos, perderiam sua individualidade, seu sentimentos e sua liberdade, passando a ser controlados pela coletividade, uma totalidade onisciente formada pela união de todas as mentes (biocibernéticas) borgs. O objetivo de tal assimilação é simplesmente o aperfeiçoamento da "pseudoespécie", ou seja, o borg é, ao mesmo tempo um meio e um fim em si mesmo e sue único objetivo é seu crescimento em número e em eficiência técnica. É a totalidade que se realiza aperfeiçoando a si-mesma.

Esta noção de totalidade como meio que é ao mesmo tempo um fim em si é muito próxima à ideia de Ser hegueliana que, por sua vez, como observa Moishe Postone, recobre a ideia de Capital. A diferença é que Heguel concebe o Ser como consciente, trans-histórico e vê sua realização como positiva. Marx, por sua vez concebe o Capital como cego, histórico (na verdade a modernidade é a única civilização regida por uma lógica da totalidade) e vê sua realização como catastrófica para a humanidade.

A coletividade borg é uma totalidade cujas caracteríticas são um misto do Ser hegueliano e do Capital: é consciente como o ser; e certamente é histórica (pois surgiram em algum momento) e sua realização seria catastrófica para os humanos, pois implicaria no fim da espécie.

(Apenas para traçarmos um paralelo, a Matrix, como realidade neurointerativa/simulada, também constitui uma totalidade semelhante à dos borgs: consciente, histórica e cuja realização foi catastrófica para os humanos. Na verdade a Matrix é quase idêntica à coletividade borg. Uma diferença é que na Matrix, as máquinas proporcionam aos humanos uma ilusão da individualidade e controle sobre suas vidas, enquanto no universo borg a absorção pela totalidade é direta. Neste aspecto a ilusão da Matrix é mais próxima da realidade ideológica do capitalismo, fundada na fé iluminista na razão, na consciência de si e no livre arbítrio.)

A febre zumbi

O zumbi remonta às religiões africanas e foi introduzido na cultura ocidental pelos escravos africanos. Mas sua presença no imaginário contemporâneo, certamente se deve ao vodu haitiano. Na religião vodu, o zumbi é uma pessoa morta que foi revivida por um feiticeiro que tem controle total sobre o morto-vivo.

O primeiro filme sobre zumbis é o clássico trash A noite dos mortos-vivos de 1968. No filme, um grupo de pessoas se refugia numa fazenda para se defender dos mortos, que levantam da tumba para se alimentar dos vivos, mas também para contagiá-los com a praga zumbi. 

Como no vodu, os zumbis não têm vontade própria, mas as semelhanças param por aí. Ao contrário da religião haitiana, não há um feiticeiro no controle dos zumbis. O que os controla é uma fome insaciável de carne humana. e, assim, como os borgs, os zumbis expandem sua população através do contágio - que neste e em quase todos os filmes sobre zumbis acontece através de mordidas.

O sucesso da ideia foi tamanho que, a partir os anos 70, foram produzidos incontáveis filmes, séries, games, quadrinhos e até romances com a temática zumbi. A esmagadora maioria destas obras retratam o zumbi de forma semelhante à do primeiro filme: alimentam-se de pessoas vivas e as contagiam; passam a ser controladas por esta fome insaciável de carne humana; não têm consciência de si nem do mundo (são seres irracionais, involuídos ao estágio réptil); não sentem dor física ou psíquica; têm a aparência repugnante de mortos putrefatos; e seus movimentos são enrijecidos e limitados. 

A temática zumbi das narrativas pop aborda o problema do controle. As pessoas perdem o controle sobre si-mesmas ao se tornarem mortas-vivas. Como em Matrix e nos episódios sobre os borgs de Star Trek, na temática zumbi, quem controla as pessoas não é um rival humano (um déspota, uma empresa, um governo) nem mesmo um inimigo demoníaco, que representaria o mal. 

A Coletividade Borg, a Matrix e a praga zumbi são totalidades abstratas que exercem um domínio impessoal sobre os indivíduos que as compõe, sem que estes tenham consciência deste domínio. Mas enquanto as duas primeiras totalidades são dotadas de alguma consciência, mesmo que técnica/instrumental, a praga zumbi é uma totalidade cega, irracional e desprovida de qualquer objetivo que não seja se expandir. As pessoas, uma vez tornadas zumbis, existem unicamente como meio para a expansão desta totalidade, literalmente às custas de suas vidas.

A praga zumbi, como totalidade cega e expansiva, é a que mais se aproxima da totalidade do capital e sua dominação abstrata, tal como a concebe a crítica do valor. É claro que, como em Matrix e nas fábulas borgs de Star Trek, a totalidade zumbi não é identificada com o capital (o sujeito abstrato que controla o homem moderno, segundo Marx), e sim projetada num outro: a praga zumbi, que normalmente é um vírus.

Totalidade abstrata e sujeito automático

A crítica do valor concebe o capital como uma forma social que perfaz uma totalidade abstrata (porém real) que exerce uma dominação impessoal sobre os indivíduos através do trabalho. A Matrix, a coletividade Borg e a praga zumbi também perfazem uma totalidade abstrata cuja dominação é impessoal, ou seja, não é exercida nem por uma pessoa (um déspota), nem por um grupo social específico (uma oligarquia). 

Assim como o capital, a Matrix, a coletividade Borg e a praga zumbi são totalidades que dominam tanto o íntimo dos indivíduos, que se tornam autodisciplinados, quanto sua organização social. A dominação não é percebida pelos indivíduos, que a veem (no caso do zumbi, sua irracionalidade não permite perceber nada) como coações naturais que, como a leis da gravidade e a necessidade de se alimentar, não poderiam ser de outra forma. A totalidade e suas normas constituem, portanto, uma base (ou solo) a partir da qual os indivíduos agem e pensam. Mesmo quando há individualidade (como na Matrix e no capitalismo), esta é ilusória e suas características são determinadas anteriormente pela totalidade, sem que o indivíduo tenha consciência desta determinação a priori.

Por isto, o único sujeito de fato que existe em tal situação é a totalidade, a qual constitui um sujeito automático, agindo pelas costas dos indivíduos, tal como num circo de marionetes. a expressão “sujeito automático” foi cunhada por Marx para caracterizar o capital como verdadeiro sujeito por trás das ações e visões de mundo dos indivíduos na sociedade capitalista. Contestando a ideia iluminista de que o homem moderno é (ou pode se tornar) um sujeito racional, dotado de vontade própria e liberto da coações irracionais das sociedades fundadas na religião, Marx afirma que as pessoas, na modernidade, são dominadas pela totalidade abstrata do capital. Uma dominação, ao mesmo tempo, íntima e social, e que permanece inconsciente para os indivíduos, que percebe as normas do capitalismo quase como leis naturais - uma segunda natureza.

Esta totalidade que domina os indivíduos de forma impessoal e se constitui como sujeito automático, aparece nos filmes e séries sobre a Matrix, os borgs e os zumbis. E tal como em Marx, o sucesso destas totalidades em realizar-se como tal é catastrófico para os todos os seres humanos.

Diferente da ficção científica do passado e dos filmes comerciais em geral, os antagonistas destas narrativas não são pessoas ou grupos sociais que encarnam o mal, em busca de poder ou riquezas. O mal (as narrativas ainda são maniqueístas) se constitui, agora, como totalidade abstrata e sua dominação impessoal se dá pelo controle direto dos corpos e mentes, desde o íntimo dos indivíduos. O mal está, ao mesmo tempo, dentro do corpo e no exterior social, de forma onisciente e onipotente, que tudo vê e tudo pode. A totalidade (seja ela a Matrix, a coletividade borg ou a praga zumbi) é constituída pelos indivíduos, mas também os constitui e, na verdade, os controla. Exatamente como Marx concebe a dominação abstrata do capital. Tanto no capitalismo quanto nas fábulas da ficção científica, os indivíduos são destituídos de sua humanidade se tornam apenas meios para a totalidade abstrata se reproduzir e se realizar: trabalhadores no capitalismo, fonte de energia na Matriz, corpo hospedeiro para a praga zumbi, zangão da coletividade Borg.


Repressão e recalque no capitalismo

Todo domínio se mantém por um processo contínuo de repressão, pois implica em submissão da vida a outrem. No capitalismo a vida das pessoas estão submetidas aos rigores do trabalho, à necessidade de trabalhar para se sustentar. Mesmo os capitalistas estão coagidos pelo capital a serem o mais eficientes possível na busca do lucro, sob pena de se verem derrotados pela concorrência.

A obrigação do trabalho e da busca do lucro (mais valia) engendra uma racionalidade instrumental e uma burocratização da sociedade que se alastra por todas as dimensões da vida e convertem as pessoas em peças de uma grande engrenagem (a máquina capitalista) social, voltada exclusivamente para a reprodução do capital (lucro). No capitalismo, não é a produção de bens que atende às necessidades das pessoas, nem é o dinheiro que serve à vida. As necessidades humanas são mero apêndice da produção de bens (na verdade mercadorias), que passa a ser produção pela produção e cuja finalidade principal é o lucro. Da mesma forma, a vida das pessoas é que serve à multiplicação do dinheiro, ou seja, ao capital. O capital está no controle das vidas e não o contrário.

Esta inversão de controle bloqueia o desenvolvimento pleno da vida humana, sufocando os desejos das pessoas, a não ser que tais desejos sejam produtivos, ou seja, propiciem lucro, na forma de consumo. O capitalismo necessita, então, reprimir o desejo. Boa parte dessa repressão é direta: polícia, vigias, gerentes, patrões. Mas para que a repressão seja eficaz, ela precisa ser interiorizada em forma de autodisciplina e seu processo deve ser inconsciente, o que é conseguido por meio do recalque.

A dominação abstrata exercida pelo capital é então recalcada. No capitalismo, a produção de mercadorias serve à geração de mais valia e não às necessidades das pessoas; o trabalho é também uma mercadoria cujo objetivo principal é se transformar em valor e não produzir bens necessários à vida humana,. Em suma, é a vida das pessoas que serve para o capital/dinheiro se reproduzir e não o contrário: o controle do processo está com o capital e não com as pessoas. A realidade desta dominação não pode ser percebida como tal e, por isso, ela passa, por meio do recalque, para o inconsciente, se tornando um conteúdo reprimido.

O resultado é que, a nível da consciência (e mesmo nos extratos mais superficiais da inconsciência -  pré-consciência) as pessoas passam a desejar a repressão do capital e os valores que ela engendra, vistos, agora, como benéficos. Assim, o trabalho dignifica o homem e não o aniquila, o mercado (de trabalho e de mercadorias) é o exercício da liberdade entre os iguais e não uma forma de coação, os resultados competição feroz é a premiação do mérito e do esforço etc.

Mas o reprimido não deixa de manifestar sintomas que externam seu mal estar, geralmente por meio de projeções. Eis um dos papeis da ficção científica, mas também de quase todo o cinema e teledramaturgia comercial: a de criar fantasmas malignos (bodes expiatórios) nos quais se possa projetar a responsabiliade pelo mal estar sistêmico que a repressão capitalista não para de produzir.

Estes fantasmas do recalque são frequentemente personagens ou grupos (empresas, governos, castas) identificados com o mal. Assim, em "Guerra nas estrelas", o mal está no império dos Siths, mestres do lado escuro da força, antagonistas dos rebeldes que desejam restaurar a democracia (ao estilo ocidental). Nesta operação de projeção, o mal é um elemento estranho à sociedade idealizada, que corresponde à democracia capitalista. Há uma dupla operação nesta projeção. Primeiro, ao ser expresso como "o mal", o mal estar se torna um problema moral de algumas pessoas 'malvadas" que desejam dominar as outras, personificando a dominação impessoal. Segundo, este mal, ao se fazer representar politicamente como império despótico, se torna exterior e estranho à democracia capitalista, ou seja, se trata de um outro, de um inimigo externo.

Pode-se dizer que "Guerra nas estrelas" é um filme que realiza de forma ótima a projeção do mal estar que o conteúdo reprimido pelo capitalismo deixa vazar, ao deslocar a natureza impessoal da dominação abstrata para o problema moral da dominação pessoal e ao expulsar para fora da sociedade democrática capitalista (e do sujeito automático do capital) este mal, visto como atributo de um império despótico (do imperador, sujeito despótico). De resto, esta projeção personificada e moralista dos fantasmas da sociedade capitalista nada mais é do que a repetição de estratégias narrativas de todo o cinema comercial do Ocidente (notadamente o dos EUA) que, por sua vez, herda tal forma do romance folhetinesco do seculo XIX. Das mesmas técnicas narrativas se vale a produção televisiva ocidental, com suas séries e telenovelas: sempre há um malvado, um grupo de malvados, uma empresa ou governo corruptos a serem combatidos e derrotados pelos mocinhos.

Problemas no mecanismo de repressão

Os filmes Matrix, os episódios borgs de Star Trek e o fenômeno zumbi evidenciam um problema no recalque. O mal, nos três casos, não é mais pessoal nem passível de condenação moral. A matrix, os borgs e a praga zumbi não podem ser demonizadas nem punidos, nem se tratam de um grupo de homens homens malvados que querem dominar os outros por poder ou dinheiro.

Estas três entidades "do mal", matrix, coletividade borg e praga zumbi, se distanciam da pessoalidade e imoralidade dos bandidos tradicionais do cinema comercial e guardam muitas semelhanças com o capital:
  1. A dominação é impessoal e abstrata, e não exercida por um grupo ou déspota; 
  2. O "mal" não é percebido como ameaça pelos indivíduoas dominados, pois constitui o solo sobre os quais os indivíduos se crescem e se desenvolvem, sendo portanto naturalizado, como são as leis do capital;
  3. A dominação é expansiva e irrefreável, além de destruir, absorver e homogeinizar as sociedades dominadas;
  4. O "mal" é cego aos sentimentos e ética humanos (no caso dos zumbis, a praga é cega a tudo, ou seja, é absolutamente inconsciente, como o capital).
  5. A dominação atinge todos os aspectos da vida humana, inclusive o tempo de lazer e as relações afetivas.
Estas semelhanças são um sintoma de que a verdade sobre a dominação abstrata que o capital está saindo do inconsciente (esquecimento) e se aproximando perigosamente da consciência. Isto significa que o mecanismo de recalque do capitalismo começa a falhar. O sucesso popular da matrix, dos borgs e dos zumbis mostra que a falha é generalizada, o que remete a uma crise sistêmica da repressão, que por sua vez, é parte da crise generalizada pela qual o capitalismo passa, desde que se iniciou sua fase neoliberal, na passagem dos anos 70 para os anos 80 do século passado.

Mas há duas considerações a se fazer, que realtivizam a falha da repressão. A primeira é que, nos três casos (matrix, bors e zumbis), embora haja aproximação com a realidade da dominação abstrata do capitalismo, não há ainda, plena consciência desta dominação. Tanto a matrix, quanto a coletividade borg e a praga zumbi, ainda estão no nível das projeções, que distorcem a imagem real da dominação, embora se assemelhem a ela, em seu caráter abstrato e impessoal. Nos três casos, por exemplo, a natureza da dominação é física e não social: são as máquinas da matrix conectadas ao sistema nervoso, as nanomáquinas borgs injetadas no corpo biológico e o vírus zumbi que infecta o corpo. O valor, ao contrário, é uma forma social históricamente constituída. Este desvio, que evita a forma social e fantasia uma dominação física, é uma forma de não ver a realidade com precisão, que ainda é uma forma de negação.

É como se o conteúdo reprimido (a dominação abstrata e seu mal estar) não pudesse mais ser contido pela ficção tradicional, que o projetava em pessoas ou grupos de pessoas malvadas. Com a crise do capitalismo, o reprimido faz uma pressão enorme para vir à consciência. Mas se isto acontece, é o fim do capitalismo. O mecanismo de repressão, então, se readapta e faz um perigoso jogo com o conteúdo reprimido: revela a sua realidade de dominação abstrata, mas desvia o foco para longe da sociedade, mantendo o jogo das projeções. Não é o capital (forma social) que domina as pessoas no presente. É um vírus, as maquinas ou uma sociedade alienígena que vão dominar os humanos num futuro hipotético.

A segunda observação decorre da primeira. Por continuar sendo uma projeção de fantasmas, estes filmes e séries não são críticos nem despertam potenciais emancipatórios em relação ao capitalismo. Basta verificar quem são seus espectadores mais ardorosos e qualificados, os nerds e geeks (CDFs para usar um termo mais tradicional), ou seja, uma jovem elite intelectual técnica, acrítica e instrumentalizada, muito bem integrada à sociedade capitalista, seja como consumidores ou produtores.

O que se pode afirmar é que, a partir destes filmes e séries sobre matrix, borgs e zumbis, os mecanismos de recalque da sociedade capitalista entram numa nova fase, muito mais arriscada e complexa, pois necessitam lidar com um conteúdo reprimido (a realidade da dominação abstata do capital)  mais próximo da consciência, que exerce um violenta pressão para emergir e que recusa o recalque moralista e personalista, que projetava seus fantasmas no jogo maniqueísta, outrora simples e eficaz, de bandidos e mocinhos. A ficção comercial começa a perder a inocência.

O espírito reacionário

O sucesso mundial dessa nova ficção científica (sobre a matrix, borgs e zumbis) é sinal de que, diante da crise do capitalismo tardio e das pressões violentas exercida pelo conteúdo reprimido (da dominação abstrata), que se aproxima perigosamente da consciência, o inconsciente coletivo necessita de uma nova "economia" do recalque e de projeção de seu mal estar, não tão ingênua quanto a luta entre bandidos e mocinhos. Mas indica também que há uma recusa geral em se tomar consciência da natureza social da dominação abstrata. Filmes comerciais e bem realizados, com atores famosos, como Clube da luta e O show de Truman seriam mais propícios para abordar a dominação abstrata de uma perspectiva social, tal como ela ocorre, de fato, no capitalismo. O fato de tais filmes, embora tenham se tornado cult, não desfrutarem do sucesso da nova ficção científica, indica que a psique contemporânea evita tomar plena consciência da dominação abstrata exercida pelo capitalismo sobre as pessoas. A psique coletiva não está, portanto, preparada para a tomada de consciência e a inevitável mudança que ela acarretaria, que seria certamente uma revolução antropológica, comparável à passagem do espírito medieval ao moderno, que resultaria numa emancipação em relação ao sistema capitalista.

A pressão que o conteúdo reprimido da dominação abstrata exerce para emergir seria uma ótima oportunidade para trazer esta dominação à consciência, impulsionando a sociedade para a emancipação do capitalismo, mas, como se viu, esta não é uma possibilidade para a psique atual. Diante desta impossibilidade da conscientização, resta à psique reajustar a repressão. Esse aprimoramento do mecanismos de recalque que a nova ficção científica expressa, quase revelando (mas ao fim ocultando) a realidade da dominação abstrata é parte deste reajuste da repressão.  

A outra face do ajuste da repressão é o ressurgimento de velhos reacionarismos, sejam eles religiosos, morais, xenófobos, raciais ou fascistas. O fascismo ressurge na Europa, o fundamentalismo terrorista assola o mudo islâmico, o fundamentalismo cristão se revigora no Brasil e EUA, assim como um anti-comunismo guerra fria, no Brasil a mentalidade escravocrata das elites e classes médias deixa seu estado de latência e emerge com fúria, sob o disfarce de liberalismo e combate à corrupção.

O ressurgimento vigoroso do espírito reacionário se explica como reação à violenta pressão que o conteúdo reprimido da dominação abstrata exerce sobre a consciência e da insuficiência do espírito liberal ou progressista para conter sua pressão, nestes tempos de crise generalizada do capitalismo. É o recurso de uma violência contra outra. É também uma forma de desviar o foco da causa real do mal estar social na atualidade, que é a dominação abstrata exercida pelo capital, oculta no inconsciente como conteúdo reprimido, através do mecanismo de recalque. Assim, para o fundamentalismo, cristão ou muçulmano, os problemas atuais do capitalismo são de natureza moral, de uma sociedade cujos indivíduos se deixaram dominar pela ganância e a vaidade, se afastando de Deus e seus códigos morais, que devem ser resgatados (à força, se necessários) para que se restaure o equilíbrio social.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Com a bênção de Deus

O porrete baixa nas costas das bichas e macumbeiros
Os vermelhos e os pretos apodrecem com os bandidos na prisão-vingança
As bocas evangélicas vomitam fascismo como se cantassem o amor
As cantilenas (neo)liberais enrabam o povo como se o ninassem
As cobras, águias e urubus se apoderam dos quatro poderes
As chupetas eletrônicas adoçam a alma enquanto levam tudo
Os condomínios e apartamentos se apartam do mundo
As pessoas se apartam do mundo, umas das outras, de si mesmas
O ódio floresce nos jardins de asfalto

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Crítica do valor: crítica do trabalho

A crítica do valor, ao contrário do marxismo tradicional, é uma crítica do trabalho. Este é visto como a substância do valor, ou seja, o trabalho no capitalismo existe para se converter em valor e mais valor (capital).

O marxismo tradicional é uma crítica do capitalismo a partir do trabalho. Por isso, a classe trabalhadora é vista como o sujeito coletivo revolucionário que irá superar o capitalismo, rumo ao socialismo.

A crítica do valor não nega a luta de classes, que é o conflito do trabalho com o capital. Mas, para eles, esta é uma luta dentro dos limites do capitalismo e não tem a capacidade de levar à superação deste, pois o trabalho é uma categoria básica do capital.

O comunismo (superação do socialismo) não viria com a tomada do poder pela classe trabalhadora, que se tornaria proprietária dos meios de produção, como pensa o marxismo tradicional. Para a crítica do valor, o comunismo só será possível com a abolição da classe trabalhadora. A superação do capitalismo não seria a realização do trabalho (e do trabalhador), mas sua extinção.

Por que se trabalha na capitalismo? Muitos dirão que é para satisfazer as necessidades humanas, físicas e simbólicas: alimentação, moradia, transporte, vestuário, diversão etc. Para os críticos do valor esta dimensão concreta do trabalho, de satisfação das necessidades, existe, mas fica em segundo plano. O motivo principal de trabalharmos no capitalismo é para gerar valor e mais valor.

Em termos grosseiros, trabalhamos para o dinheiro se multiplicar. Vivemos, literalmente, para o dinheiro, como se fôssemos pilhas de energia para alimentar o capital. No capitalismo, a economia não existe para satisfazer as necessidades das pessoas, como pensam os economistas liberais ou progressistas. São as pessoas que existem para satisfazer as necessidades da economia: e a sua principal necessidade é a reprodução do capital.

O poeta Paulo Leminski em seu livro Metaformose escreve que "os homens são os órgãos sexuais das fábulas". Com esta bela metáfora ele queria dizer que há um mundo das fábulas para além do controles dos homens que as contam.  Ao contrário do senso comum, que diz que os homens utilizam as fábulas para exprimir sua cultura, Leminski inverteu os termos: são as fábulas que se utilizam dos homens para se reproduzir. Como se o mundo das fábulas fosse independente da vontade dos homens e estivesse, na verdade, no controle da relação homem-fábula.

Esta metáfora de Leminski é análoga à visão da critica do valor. Pensamos que o dinheiro e a economia servem às nossas necessidades, mas na realidade nós é que servimos à economia. Parafraseando Leminski, "os homens são os órgãos sexuais do capital". O verdadeiro sujeito (automático, como dizia Marx) que tem o controle da relação homem-economia é o capital.

Para a crítica do valor, as pessoas são pilhas que alimentam a maquinaria abstrata do capital. E é através do trabalho que a economia suga a energia das pessoas e o capital se reproduz.



sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Marx antropólogo

Dependendo da perspectiva, Marx pode ser considerado economista, sociólogo ou filósofo.

Recentemente, a crítica do valor, cujos principais teóricos são Moishe Postone e Robert Kurtz, redescobriram um outro Marx e, consequentemente, um outro marxismo, próximos da antropologia.

Um conceito chave da antropologia é o de cultura, que se refere, entre outras coisas, à identidade de um povo e, consequentemente, à diferença entre ele e os outros povos.

O reconhecimento da diferença irredutível entre os povos é um mérito da antropologia. Esta irredutibilidade implica na impossibilidade de se medir um povo pela régua cultural de outro povo. Quando uma cultura tenta entender a outra, a partir de suas ideias, crenças e valores, inevitavelmente haverá uma distorção que resulta, quase sempre, na visão do outro como indesejável ou inferior.

É o que aconteceu com o Ocidente no séc. XIX, quando os primeiros antropólogos modernos, ao tentar interpretar as culturas dos povos não ocidentais, taxou-os de primitivos. Povos tribais de vários continentes e até povos imperiais, como Indianos, Japoneses e Chineses, seriam inferiores aos povos ocidentais, numa suposta escala evolutiva cultural. É o que conhecemos hoje como etnocentrismo ocidental.

O que Marx e seus escritos tem a ver com tudo isto?

A leitura que a crítica do valor  faz de Marx, ao contrário do marxismo tradicional, não considera que a lógica dialética (ou qualquer outra) seja aplicável a toda história humana. Apenas o capitalismo se desenvolve dialeticamente. Aliás, apenas o capitalismo tem uma lógica totalizante de evolução histórica, o que o caracteriza como uma cultura previsível em seu desenvolvimento histórico. A sociedade capitalista (a modernidade) é dirigida ferreamente pelas leis do capital, que são dialéticas, progressivas e totalizantes, além de inconscientes, pois não dependem das vontades de grupos e indivíduos, atuando "por trás" de suas vontades.

As outras culturas e suas histórias, embora marcadas também por simbolismos inconscientes, não são guiadas por uma férrea "lei social" como a do capital. Por isto, a sua história é muito menos previsível e progressiva que a modernidade.

Para Moishe Postone e Robert Kurtz a insistência em aplicar conceitos como trabalho, mercado, economia e comércio em outras culturas, não passam de projeções de nossas categorias a povos que nada tem a ver com elas. Da mesma forma, quando se tenta encontrar regras totalizantes que determinam a evolução de uma dada cultura ou mesmo de toda a humanidade, o que se faz é  projetar as "leis" de desenvolvimento da sociedade capitalista (progressiva e totalizante) a povos cuja história se desenrola sem as coerções da "lei social" do capital.

Outro ponto que distancia o marxismo tradicional dos teóricos da crítica do valor é que estes consideram as categorias básicas que Marx utiliza para definir o capitalismo (trabalho, valor, mercadoria e capital) como formas sociais fundantes. Para os críticos do valor, estas formas sociais são, ao mesmo tempo, constituídas por e constituintes das relações sociais no capitalismo.

É a partir das formas sociais que a lógica dialética do capital irá se desenvolver e moldar todo o sistema, desde sua economia, passando por suas instituições políticas, até a subjetividade dos indivíduos. O materialismo marxista, tão prezado pelo marxismo tradicional, é substituído pelos arranjos simbólicos das formas sociais, que se transformam no cerne cultural do "povo' capitalista, ou seja, do homem moderno. (A palavra homem cai bem aqui, pois a perspectiva capitalista do mundo é masculina, construída culturalmente como competitiva e racional, em oposição à mulher, solidária e emotiva. A concorrência impiedosa e dominação "racional" e irrefreada do mundo são as manifestações desta subjetividade masculina que, em última análise é próprio capital  (sujeito automático) agindo "por trás" das pessoas.)

Para a crítica do valor, assim como para a antropologia, não é a evolução material das técnicas e ferramentas (forças produtivas) que determinam o desenvolvimento do mundo simbólico constituído pelas formas sociais. Antes, é a maneira como as formas sociais (o simbólico) organizam o desenvolvimento das técnicas e ferramentas que determinam a identidade de um povo e, em consequência, a diferença para com os outros povos.

A especificidade do Marxismo, se o virmos como uma antropologia, é que se trata do estudo da identidade de um único povo: a sociedade moderna. Trata-se de uma antropologia, ao mesmo tempo limitada e global. Limitada por se restringir à sociedade capitalista que remonta a, no máximo, 500 anos da história humana e que, caso Marx esteja certo (e a empiria tem confirmado as suas previsões) não tem muito tempo de vida. O dia em que o capitalismo acabar o marxismo também acaba, pois sua única missão é perseguir criticamente o desenvolvimento capitalista, de seu nascimento à sua morte, como uma sombra inconveniente.

Mas o marxismo se tornou global à medida que seu objeto de estudo, o capitalismo, se expandiu por toda a Terra, eliminando as outras culturas. Hoje, praticamente todos os povos da terra foram absorvidos pelas formas sociais capitalistas, restando quase nada das abissais diferenças entre os povos pré-capitalistas, pois uma das consequências da lógica totalizante do capital é a padronização progressiva de todas as sociedades, tornando-as uma mesma cultura.

O marxismo se torna global também porque se expandiu a todas as esferas da vida, impregnando praticamente toda a atividade humana com suas leis e valores. Do mercado, passando pela política, pelos lares, até chegar ao íntimo da subjetividade e às fugas da arte, o capital impõe suas categorias, leis e perspectivas, deixando pouco espaço para o desenvolvimento de uma alteridade que o questione.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

na pátria pré-abissal

ambulantes e mendigos rondando os sinais entupidos de carros e noias rondando as ruas despencadas de lobos ferozes e ovelhas crédulas rondando o caos

ricaços de mala e cuia para Miami Portugal ou reforçando seus bunkers à prova de pretos e pobres subgente sonhando sonhos clandestinos de América e Europa

a média remediada morrendo de medo em seus bunkers precários úteros de ódio e rancor se agarrando a lentes e telas bíblias e balas futebol e churrasco

todo mundo embalado na canção de ninar do trabalho duro e do mérito pessoal entoada dia e noite nas ruas e redes para as pessoas de bem contra os vermelhos do mal

amém

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lá fora (bunkers 2)

As mãos dadas do mundo?
Desse mal-
querer não padecem.

Querem
saltar da favela
ao paraíso dos bunkers,
vida próspera e reta,
ganhar e gastar.

Querem voar
pra clausura dos muros
dos homens-casulo
em suas conchas de ouro.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Limpeza urbana

Guardas civis,
com o apoio de garis,
tomam os bagulhos do mendigo
e, de quebra,
lhe aplicam uns bons sopapos.

Bem feito!
Quem mandou
sujar a cidade com os seus trapos
e sua existência?

O episódio é desagradável
ao paladar civilizado,
porém,
necessário ao bom funcionamento
e à assepsia da cidade,
para o bem viver
das pessoas de bem.

O prefeito,
sinceramente,
lamenta o os fatos
e lava as mãos.


quinta-feira, 16 de março de 2017

bunkers

os vidros fechados dos carros
os muros altos das casas
condomínios fechados
edifícios fortificados
câmeras, sensores, alarmes
a segurança dos shoppings

lá fora o mundo
favela sem fim

o egoísmo venceu
palmas pra mim

terça-feira, 7 de março de 2017

bigmedia.com

– Você não desgruda desses sites
e canais de notícias!

– Ah, eu gosto muito de ficção!

sexta-feira, 3 de março de 2017

Bestagem

Bom dia Maria, boa tarde João,
boa noite professor. Como vai?
Tudo bem?

Qual a substância humana oculta
atrás da máscara-máquina de trabalhar
de todo mundo, todo dia?

Deixa disso meu filho, que perguntação
mais besta, de gente besta, da besta!
Vai que não tem nada...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A natureza da poesia

A poesia sempre foi uma coisa suja, das que se misturam com o pior que há. A poesia de hoje não está nos livros, purificada por rigores estéticos, regrada pela erudição e chancelada pela autoridade dos intelectuais e da academia.

A poesia de hoje é a música pop, a canção, samba, blues, rock, sertanejo, funk. Os poetas e sua poesia se sujam de massa e mercado. Sua poesia é feita de música e letra rudimentares, movida à fama e dinheiro.

É neste pântano da poesia que surge, de vez em quando, a luz de uma canção selvagem, um poeta sombrio que nos ilumina.



domingo, 1 de janeiro de 2017

Nosotros

Multidões,
vagam sós pelas redes, ruas,
mercados, shoppings, rodovias...
Carregam o desejo infinito de mais, sempre mais.
A vida se esvai

e a multidão, que não sabe de si,
se entrega ao trabalho incessante
de seus corpos contagiados pela devoção
da devoração do mundo
e de si mesmos.

Os zumbis perdem partes de si
perdem os seus, a alma e o mundo
e não sentem dor.
Perdem a beleza, derretem, despencam de si
e não se sentem feios
nem belos.
Perdem o prumo, o sentido, a lembrança
e não sentem o nada
imenso que os habita.

Autômatos perfeitos,
os zumbis não sentem o mal
nem o bem,
nem a solidão que se expande na noite
sem lua e estrelas de seu espírito ausente.

Não sentem nada
a não ser o desejo infinito de devorar(-se),
de gastar(-se) mais
e mais

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

domingo, 18 de dezembro de 2016

o reino de mammon

cada palmo de terra
tem cerca e senhor
sertão não tem não

um maquinal compasso
de prazos e horários
adestra a duração

balcões e vitrines
encerram o desejo
em jaulas de ouro

nem as almas tão leves
escapam ao peso
das réguas do preço

o corpo e a mente
dia a dia se negam
se entregando ao trabalho

no coração dos súditos
a aridez das horas
a solidão dos muros



sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

no dentro do momento

é preciso estar dentro do tempo
soçobrar e delirar ao mesmo tempo
e no mesmo universo dos astros
que povoam nosso céu pop
& cosmológico de estrelas
sem fim     estar agora
saber que agora
todos os agoras
são atravessados de precário
pelos séculos dos séculos
antes e depois deste momento
não há nada que não seja
movimento     nada permanece
em si     tudo está
fora de si    não há
nada mais fora da hora
que pensar em versos
sobre a antietern
idade
do universo
este poema
se des
faz
em mi
l
ped
aços
arbitrá
rios
ao capricho de um cand
ido epígono (po
p)d i     l        u           i
dor de tu
do
se des
faz em
l e t r a s
balbu
cio de am
or ou brincade
ira de cria
nça     pueril
po
e
ira
em
forma
de
po
esia
á r i a  á r i d a
espaços vazios de
uma galáxia
um des
erto ou á
tomo ou alma de um roma
ntico senti
mental
em certos assuntos
(em est
éticas & práticas po
éticas)
pertencer à primeira metade do século XX
é estar mais próximo do século XIX ou XV
ou de dante & ovídio & homero
do que deste momento pop pós-meta
físico
em que nada res
ta resta
nos então la
mentar di
ante da per
versidade da vora
cidade  da eletri
cidade que nos
cerca nos suf
oca no ag
ora
mas por que lamentar querendo ex
tar estrela eterna num pass
ado que não vou
ta
mais
?
que tal
vez nunc
a h
ouve
na face da t
erra
?
é preciso estar errar so
rrir chorar esc
rever vi
ver
mer
gul
ha
do
no
d
e
n
t
r
o
m
a
i
s
d
e
n
t
r
o
d
o
m
o
m
e
n
t
o
nas margens do dentro


Escrito em 2008

sábado, 26 de novembro de 2016

à velocidade da luz

o caos avança nas ruas      o caos avança nas casas      zumbis vagam o deserto
de asfalto ferro e cimento      ávidos por um trabalho      ávidos por um salário  
anseiam uma chuva de crédito      para a colheita nos shoppings      e um farto supermercado
se as bocas repetem que sim      à espera de dias melhores      os olhos se afundam no chão
por dentro uma chuva de lágrimas      inunda o deserto das almas     de frio ferrugem e pó
os zumbis e seus corpos lentos      lentos seus pensamentos      se perdem apodrecendo
no inferno de ferro e cimento      o caos avança nos corpos      o caos avança nas mentes
à velocidade da luz