quarta-feira, 23 de agosto de 2017

na cidade pré-abissal

ambulantes e mendigos rondando os sinais entupidos de carros e noias rondando as ruas despencadas de lobos ferozes e ovelhas crédulas rondando o caos
ricaços de mala e cuia para Miami ou Portugal ou reforçando seus bunkers à prova de pretos e pobres subgente sonhando sonhos clandestinos de América e Europa
a média remediada morrendo de medo em seus bunkers precários úteros de ódio e rancor se agarrando a lentes e telas bíblias e balas futebol e churrasco
todo mundo embalado na canção de ninar do trabalho duro e do mérito pessoal entoada dia e noite nas ruas e redes para as pessoas de bem contra os vermelhos do mal
amém

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lá fora (bunkers 2)

As mãos dadas do mundo?
Desse mal-
querer não padecem.

Querem
saltar da favela
ao paraíso dos bunkers,
vida próspera e reta,
ganhar e gastar.

Querem voar
pra clausura dos muros
dos homens-casulo
em suas conchas de ouro.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Limpeza urbana

Guardas civis,
com o apoio de garis,
tomam os bagulhos do mendigo
e, de quebra,
lhe aplicam uns bons sopapos.

Bem feito!
Quem mandou
sujar a cidade com os seus trapos
e sua existência?

O episódio é desagradável
ao paladar civilizado,
porém,
necessário ao bom funcionamento
e à assepsia da cidade,
para o bem viver
das pessoas de bem.

O prefeito,
sinceramente,
lamenta o os fatos
e lava as mãos.


quinta-feira, 16 de março de 2017

bunkers

os vidros fechados dos carros
os muros altos das casas
condomínios fechados
edifícios fortificados
câmeras, sensores, alarmes
a segurança dos shoppings

lá fora o mundo
favela sem fim

o egoísmo venceu
palmas pra mim

terça-feira, 7 de março de 2017

bigmedia.com

– Você não desgruda desses sites
e canais de notícias!

– Ah, eu gosto muito de ficção!

sexta-feira, 3 de março de 2017

Bestagem

Bom dia Maria, boa tarde João,
boa noite professor. Como vai?
Tudo bem?

Qual a substância humana oculta
atrás da máscara-máquina de trabalhar
de todo mundo, todo dia?

Deixa disso meu filho, que perguntação
mais besta, de gente besta, da besta!
Vai que não tem nada...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A natureza da poesia

A poesia sempre foi uma coisa suja, das que se misturam com o pior que há. A poesia de hoje não está nos livros, purificada por rigores estéticos, regrada pela erudição e chancelada pela autoridade dos intelectuais e da academia.

A poesia de hoje é a música pop, a canção, samba, blues, rock, sertanejo, funk. Os poetas e sua poesia se sujam de massa e mercado. Sua poesia é feita de música e letra rudimentares, movida à fama e dinheiro.

É neste pântano da poesia que surge, de vez em quando, a luz de uma canção selvagem, um poeta sombrio que nos ilumina.



domingo, 1 de janeiro de 2017

Nosotros

Multidões,
vagam sós pelas redes, ruas,
mercados, shoppings, rodovias...
Carregam o desejo infinito de mais, sempre mais.
A vida se esvai

e a multidão, que não sabe de si,
se entrega ao trabalho incessante
de seus corpos contagiados pela devoção
da devoração do mundo
e de si mesmos.

Os zumbis perdem partes de si
perdem os seus, a alma e o mundo
e não sentem dor.
Perdem a beleza, derretem, despencam de si
e não se sentem feios
nem belos.
Perdem o prumo, o sentido, a lembrança
e não sentem o nada
imenso que os habita.

Autômatos perfeitos,
os zumbis não sentem o mal
nem o bem,
nem a solidão que se expande na noite
sem lua e estrelas de seu espírito ausente.

Não sentem nada
a não ser o desejo infinito de devorar(-se),
de gastar(-se) mais
e mais

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

domingo, 18 de dezembro de 2016

o reino de mammon

cada palmo de terra
tem cerca e senhor
sertão não tem não

um maquinal compasso
de prazos e horários
adestra a duração

balcões e vitrines
encerram o desejo
em gaiolas de ouro

nem as almas tão leves
escapam ao peso
das réguas do preço

o corpo e a mente
dia a dia se negam
se entregando ao trabalho

no coração dos súditos
a aridez das horas
a solidão dos muros



sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

no dentro do momento

é preciso estar dentro do tempo
soçobrar e delirar ao mesmo tempo
e no mesmo universo dos astros
que povoam nosso céu pop
& cosmológico de estrelas
sem fim     estar agora
saber que agora
todos os agoras
são atravessados de precário
pelos séculos dos séculos
antes e depois deste momento
não há nada que não seja
movimento     nada permanece
em si     tudo está
fora de si    não há
nada mais fora da hora
que pensar em versos
sobre a antietern
idade
do universo
este poema
se des
faz
em mi
l
ped
aços
arbitrá
rios
ao capricho de um cand
ido epígono (po
p)d i     l        u           i
dor de tu
do
se des
faz em
l e t r a s
balbu
cio de am
or ou brincade
ira de cria
nça     pueril
po
e
ira
em
forma
de
po
esia
á r i a  á r i d a
espaços vazios de
uma galáxia
um des
erto ou á
tomo ou alma de um roma
ntico senti
mental
em certos assuntos
(em est
éticas & práticas po
éticas)
pertencer à primeira metade do século XX
é estar mais próximo do século XIX ou XV
ou de dante & ovídio & homero
do que deste momento pop pós-meta
físico
em que nada res
ta resta
nos então la
mentar di
ante da per
versidade da vora
cidade  da eletri
cidade que nos
cerca nos suf
oca no ag
ora
mas por que lamentar querendo ex
tar estrela eterna num pass
ado que não vou
ta
mais
?
que tal
vez nunc
a h
ouve
na face da t
erra
?
é preciso estar errar so
rrir chorar esc
rever vi
ver
mer
gul
ha
do
no
d
e
n
t
r
o
m
a
i
s
d
e
n
t
r
o
d
o
m
o
m
e
n
t
o
nas margens do dentro


Escrito em 2008

sábado, 26 de novembro de 2016

à velocidade da luz

o caos avança nas ruas      o caos avança nas casas      zumbis vagam o deserto
de asfalto ferro e cimento      ávidos por um trabalho      ávidos por um salário  
anseiam uma chuva de crédito      para a colheita nos shoppings      e um farto supermercado
se as bocas repetem que sim      à espera de dias melhores      os olhos se afundam no chão
por dentro uma chuva de lágrimas      inunda o deserto das almas     de frio ferrugem e pó
os zumbis e seus corpos lentos      lentos seus pensamentos      se perdem apodrecendo
no inferno de ferro e cimento      o caos avança nos corpos      o caos avança nas mentes
à velocidade da luz

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Animal Poetry



Há quem pense que o poeta pensa.
Ele não pensa, costuma ser um desastre intelectual.

Há quem pense que o poeta é um erudito refinado...
Outros, este não, este é só
um vagabundo da cultura. Ardiloso,
se passa por douto.

Há quem pense que o poeta tem o poder
de sondar os abismos da palavra,
da alma e da cidade dos homens,
quando apenas vaga perdido na superfície dos mares
como um pirata vil e violento, sedento
por roubar o tesouro dos homens
e torrá-lo em orgias nababescas.

Há quem pense que o poeta é sensível…
Isto ele é, mas sem sutileza.
Sim, o poeta é sensível,
de uma sensibilidade brutal.

Poema do livro Última Dobra.

sábado, 29 de outubro de 2016

tudo é mercado



tudo é mercado
marcado
demarcado
todos                    nascem       predestinados
ao vício          ao ócio    ao trabalho
beber e se entreter
depois de um dia de luta
um ano uma semana de labuta
gastar um pouco guardar um pouco
um pouco de juventude
que se vai a cada dia
toda revolta    se conforma     ao conforto
tudo é negócio
o ócio
o vício
o cio
a sina de todo viver
a fé a fama a canção
tudo é poder
cálculo
tesão
compaixão
tudo é necessidade
propriedade
princípio
realidade
tudo diz não
estado
domínio
cidade

preciso errar
preciso acert
ar-te

Poema do livro Popsia

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

as pessoas do bem

é pobre porque não estudou
não estudou porque não quis

sem teto sem terra? sem vergonha
isso sim, sanguessuga safado
quer tudo de mão beijada
tá precisando é de uma enxada

lugar de nordestino é no nordeste
de mulher é em casa
de pobre é na faxina
de bandido é no xadrez
ou no além

bala nos filhasdaputa

só podia ser preto

não vem pedir dinheiro aqui não
seu/sua vagabundo(a) de merda
trabalhar cê não quer não né?

vira homem, sua bichinha
sodomia é pecado, dá inferno

sangue de Jesus tem poder,
faz milagre, o Espírito Santo
me abençoou com a prosperidade

cresci por mérito próprio
minha vida é trabalhar
sou cumpridor dos deveres
e horários, eu pago as contas
em dia e os malditos impostos
que o governo rouba ou dá
pros vagabundos do bolsa família
encherem o rabo de pinga

tudo que tenho é presente de Deus
agradeço a Ele e a minha família
que eu amo de coração, o dinheiro
é importante mas o principal
é ter amor no coração
eu tenho


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

de ponta cabeça

          eu não preciso ler jornais
          mentir sozinho eu sou capaz
                                 (raul seixas)

a classe média
clara esclarecida
delira com curitiba
uma obscura pátria
facista

os doutos
enfeitados com a missão
de defender os direitos
civis se calam
ou facistam
os loucos
com suas alucinações
de gentios gentis
e sociedades solidárias
são os lúcidos
os crentes
obrigados por deus
a amar e perdoar
o outro sem condições
odeiam

os jornalistas
pagos para mostrar
a verdade dos bastidores
dos jogos de poder
ocultam
os artistas
que vivem de fingir
mentir e inventar
revelam
In: Circunstância: página online de poemas